A missão da mulher, pelo beato Anacleto González Flores, mártir da Cristiada

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“A alma da mulher não foi feita nem para abrir nem para fechar as discussões que se travam em torno dos grandes pensamentos e dos velhos ou novos sistemas; não foi feita para levar de povo em povo e de país em país os ímpetos assoladores da guerra nem para fixar os olhos nos fenômenos que nos rodeiam, descobrir suas causas e formular suas leis. A tudo isso ela tem direito, sem dúvida nenhuma, mas é um direito de certa forma acidental e acessório, porque seu verdadeiro papel se acha à parte disso. E qual é, afinal? Como a mulher chega a ser um elemento civilizador?

A missão da mulher é eminentemente educacional e todo seu poder está enraizado nestas três forças que se fundem: a beleza, a ternura e o amor. A educação compreende dois elementos, um de caráter negativo e outro de caráter positivo; o primeiro é a preservação contra o mal, o segundo consiste em ensinar àquele a quem se educa a lutar aberta e vitoriosamente contra o mal e a colocar-se acima de todas as amarguras e dores da vida. A mulher pode cumprir admiravelmente esses dois grandes fins da educação.

A mulher é um elemento formidável de preservação contra o mal, assim o ensinam eloquentemente a razão e a História. Maria Antonieta, essa rainha tão desafortunada que foi arrastada ao tribunal revolucionário para ser depois guilhotinada com seu desgraçado esposo Luís XVI, foi acusada, dentre outras coisas, de tentar corromper seu próprio filho, levando-o a ter relações sexuais com ela. Aquela alma grande, generosa e forte ergueu-se firme em meio à turba de bandidos e de assassinos que a julgava; não argumentou, não filosofou, não chorou; apenas pronunciou estas célebres palavras: “Faço um apelo a todas as mães aqui presentes.” Pois bem, tomo essas palavras formidáveis de Maria Antonieta para demonstrar que a mulher é um elemento poderosíssimo de preservação contra o mal e digo também: apelo ao testemunho de todas as mães.

Mas a mulher não o é somente quando a consideramos no papel de mãe, mas também o é como esposa, filha, e até mesmo como noiva, e por isso os que foram iniciados nos grandes segredos da vida e conhecem seus detalhes sabem quão poderosas são as terníssimas insinuações de uma mãe, os suavíssimos conselhos da esposa, a avassaladora súplica da filha e  que dizer dos desejos daquela que é dona de nossos pensamentos. Há mais: a mulher pode realizar maravilhosamente bem o segundo fim que assinalamos como um dos elementos da educação. Ao tratar desse ponto, poderia listar milhares de fatos tomados da história e da experiência cotidiana, mas para não cansar vossa atenção, vou fixar-me em dois que gozam de indiscutível celebridade: falo de Cornélia e de dona Branca de Castela (mãe de São Luis, rei da França).

Cornélia foi uma dama nobre de Roma, filha do general romano Cipião Africano, o qual derrotou Aníbal na batalha de Zama. Ela consagrou todos os seus esforços e energias de mulher à formação de seus filhos, Caio e Tibério. Em certa ocasião, perguntaram-lhe quais eram seus tesouros mais queridos e respondeu apontando para os dois. Estes, por sua vez, quando se tornaram homens, entregaram-se com entusiasmo admirável à defesa dos interesses da liberdade e do povo e foram sepultados com o orgulho e a satisfação imensa de terem selado com seu sangue os princípios inabaláveis e eternos da justiça.

Dona Branca de Castela repetia com frequência para são Luis esta frase que chegou até nós: “Melhor ver-te morto a cometendo um pecado mortal.” E a ternura e o talento incomparável daquela rainha deram à França um grande rei, à Igreja um grande santo e à humanidade uma glória que não se pode apagar.

Finalmente, a análise da estrutura do lar e do papel que nele desempenha cada um dos que o formam leva-nos ainda mais fortemente à convicção do grande poder educacional da mulher: quis Deus que o homem fosse a encarnação do pensamento e da força e a mulher a cristalização da beleza, da ternura e do amor. O pensamento com todos os seus esplendores, avanços e descobrimentos não pôde nem pode educar: prova incontestável disso encontramos na época em que vivemos. A força só sabe e só consegue fazer escravos. O pensamento unido à força só cria tiranias inteligentes e sábias como a de Augusto. O que propriamente, embora não de maneira exclusiva, forma, modela os espíritos, eleva as almas e educa são a ternura e o amor, porque a educação implica a renúncia ao mal, a renúncia a nossas paixões, a nossos instintos e é uma espécie de conquista; mas uma conquista na qual os vencidos creiam ser e sejam de fato vencedores. Ora, conquistar dessa forma, sem provocar ódios e sem levantar oposição e resistência é um atributo que só pertence à beleza, à ternura e ao amor. Júlio César, esse celebérrimo conquistador, que afirmava que em suas veias corria sangue de deuses e reis, havia cravado as bandeiras da vitória por toda a Europa e quis ir ao Egito: lá encontrou a deslumbrante beleza de Cleópatra e os ímpetos do capitão romano renderam-se ante a beleza. (…)

Shakespeare transpôs em suas obras imortais um quadro que todos os dias encarna, palpita e vive em meio a nós. A claridade da aurora começa a estender-se qual cortina esbranquiçada no oriente, tudo desperta e a cotovia canta alegremente. “O dia se aproxima”, diz Romeu a Julieta. “Oh, não, meu amado”, diz Julieta, “não é o canto da cotovia o que se ouve, mas os trinos do rouxinol.” “Pois bem”, exclama Romeu, “Se tu queres, não será a aurora que avança, mas a escuridão da noite o que nos envolve.”

Eis o poder da beleza, eis o poder da ternura, eis o poder do amor. E isso é a mulher. E por isso somente ela é capaz de realizar sem estremecimentos nem ruídos, sem oposição nem ódio, a conquista que a educação implica. E esse é um poder eminentemente civilizador, porque os desastres dos ensaios de civilização feitos até agora não têm outra razão senão esta: não se quis ou não se pôde educar.

(…) À mulher, pois, cabe o labor incomparavelmente nobre de preservar as gerações do mal, de ensiná-las a lutar triunfalmente contra ele e de acostumá-las a se colocarem acima de todas as catástrofes da vida.

(…) Contudo, pesa enormemente sobre o mundo moderno um fenômeno que consiste em que o mal e o erro chegaram a organizar-se; o mal e o erro não são poderes abstratos, não são forças que revestem um caráter individual, tampouco um caráter meramente político. Não! O mal e o erro, com o passar do tempo, vieram a constituir um grande poder social. Em outras épocas, a mulher realizava perfeitamente bem sua missão na tranquilidade do lar e vivendo em certo grau de isolamento. Mas agora já não se poderá conseguir que sua influência seja decisiva e eficaz para afastar as gerações dos caminhos do mal e empurrá-las na direção do caminho do bem sem que se levante organização contra organização, poder social contra poder social, enfim, que se alce diante da construção saída das mãos defensoras do mal e do erro a construção magnífica e esplendorosa da verdade e do bem. Daí que a ação da mulher como a de todas as classes sociais deva pautar-se por duas coisas: primeiro, deve partir de uma organização; segundo, deve ser eminentemente social. Pois que alcance terão sua ação e influência se, vivendo a mulher numa sorte de isolamento, os grandes combates pela justiça e pela liberdade são travados contra um poder tremendamente organizado? E como será possível, na tranquilidade do lar, fazer que infiltrem no espírito os princípios luminosos da verdade e do bem, se no campo aberto do mundo, que agora é um mar de lama, as almas se perdem em meio a este grande naufrágio de que somos testemunhas?

Portanto, não se realizará a missão sublime da mulher enquanto elas não começarem, atrevidamente, sem medo e sem vacilação, a se organizar e fazer esforços – quiçá titânicos e talvez sobre-humanos – para que a ação seja profundamente social.”

ANACLETO GONZALEZ FLORES, trecho de A missão da mulher, discurso proferido às Damas da ‘Liga para a Preservação da Juventude de Guadalajara’, como uma homenagem de admiração e um grito de entusiasmo

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As diferenças entre os sexos

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A diferença entre o homem e a mulher não a devemos exagerar nem subestimar. Por vezes, têm-na exagerado grosseiramente; foi o caso, por exemplo, de Aristóteles, ao afirmar que o homem é um ser em ato e a mulher um ser em potência. Ademais, têm-se estabelecido, pelos costumes, no decurso de muitos séculos, diferentes padrões morais para a conduta já do homem, já da mulher. Isso é absolutamente falso. Há uma única moral para ambos, e ambos são igualmente pessoas humanas completas. A natura humana é idêntica em ambos.

Por outro lado, não se deve subestimar nem reduzir só à biologia a diferença entre o homem e a mulher. Há, sem dúvida, traços especificamente femininos ou masculinos da personalidade. Por mais que as feministas de todas as categorias o tentem negar, ou pelo menos reduzir ao mínimo a existência de características pessoais baseadas no sexo, por mais que as mulheres modernas se mostrem ansiosas por eliminar tal diversidade, adaptando o seu comportamento ao dos homens, usando calças compridas e assim por diante, permanece inegável realidade a diferença na estrutura da personalidade do homem e da mulher. Se tentamos delinear estes traços especificamente femininos ou masculinos, encontramos nas mulheres uma unidade de personalidade decorrente do fato de o coração, o intelecto e o temperamento estarem nela muito mais entrelaçados, ao passo que no homem há uma específica capacidade de emancipar-se, com o intelecto, da esfera afetiva. Aquela unidade do tipo feminino da pessoa humana se revela também em maior unidade na vida interior e exterior, uma unidade de estilo que envolve tanto a alma como o comportamento exterior. Na mulher a própria personalidade se situa mais em primeiro plano do que as realizações objetivas, ao passo que o homem, por ter uma criatividade específica, é mais atraído para as realizações objetivas. (…)

O que importa no nosso contexto é compreender, em primeiro lugar, que o homem e a mulher não só diferem na ordem biológica ou fisiológica, mas são duas expressões diversas da natureza humana; em segundo lugar, que a existência desta duplicidade da natureza humana possui grande valor. Ainda que nos abstenhamos, por enquanto, de todas as razões biológicas, bem como da procriação, temos de compreender como o mundo é mais rico por esta diferença, e que de modo algum é desejável que se elimine demasiadamente esta distinção no reino espiritual. Infelizmente, a tendência neste sentido está demasiadamente disseminada nos dias de hoje.

É necessário compreender também que esta diversidade tem caráter complementar específico. O homem e a mulher são espiritualmente determinados um para o outro – foram criados um para o outro. Em primeiro lugar, têm uma missão recíproca; em segundo lugar, mais do que entre pessoas do mesmo sexo, é possível entre eles, por causa desta diferença complementar, uma comunhão mais íntima e um amor mais perfeito.

A sua missão recíproca revela-se tanto num benéfico enriquecimento mútuo como na diminuição dos perigos a que estão expostos os tipos masculino e feminino do ser humano quando se encontram privados desta influência. A inegável influência enriquecedora manifesta-se numa tensão animadora, numa fecundação no plano puramente espiritual.

Quanto à redução dos perigos, pode-se facilmente notar que os homens correm o risco de se tornar vulgares, esgotados ou despersonalizados pelo seu ofício ou profissão, quando estão completamente afastados de qualquer contato com o mundo feminino; e que as mulheres estão sujeitas a se tornar mesquinhas, egoístas e hipersensíveis, quando estão completamente afastadas de qualquer contato com os homens. Por conseguinte, é uma grande bênção para a criança, do sexo masculino ou feminino, receber a influência tanto do pai como da mãe.

Esta diferença entre o homem e a mulher constitui enorme enriquecimento para a nossa vida terrena. O mundo é mais pitoresco e a vida mais atraente para os homens porque há mulheres, e para as mulheres porque há homens. As mulheres têm para os homens (e vice-versa) um encanto específico, que vai da alma à aparência física, baseado em valores objetivos e no fato de um estar determinado para o outro.”

Dietrich von Hildebrand, O amor entre o homem e a mulher. Tradução de Carlos Nougué

A mulher e a sociedade segundo São João Paulo II

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“23.  Sem entrar agora a tratar nos seus vários aspectos o amplo e complexo tema das relações mulher-sociedade, mas limitando estas considerações a alguns pontos essenciais, não se pode deixar de observar como, no campo mais especificamente familiar, uma ampla e difundida tradição social e cultural tenha pretendido confiar à mulher só a tarefa de esposa e mãe, sem a estender adequadamente às funções públicas, em geral, reservadas ao homem.

Não há dúvida que a igual dignidade e responsabilidade do homem e da mulher justificam plenamente o acesso da mulher às tarefas públicas. Por outro lado, a verdadeira promoção da mulher exige também que seja claramente reconhecido o valor da sua função materna e familiar em confronto com todas as outras tarefas públicas e com todas as outras profissões. De resto, tais tarefas e profissões devem integrar-se entre si se se quer que a evolução social e cultural seja verdadeira e plenamente humana.

Isto conseguir-se-á mais facilmente se, como o desejou o Sínodo, uma renovada «teologia do trabalho» esclarecer e aprofundar o significado do trabalho na vida cristã e determinar o laço fundamental que existe entre o trabalho e a família, e, portanto, o significado original e insubstituível do trabalho da casa e da educação dos filhos. Portanto a Igreja pode e deve ajudar a sociedade atual pedindo insistentemente que seja reconhecido por todos e honrado no seu insubstituível valor o trabalho da mulher em casa. Isto é de importância particular na obra educativa: de fato, elimina-se a própria raiz da possível discriminação entre os diversos trabalhos e profissões, logo que se veja claramente como todos, em cada campo, se empenham com idêntico direito e com idêntica responsabilidade. Deste modo aparecerá mais esplendente a imagem de Deus no homem e na mulher.

Se há que reconhecer às mulheres, como aos homens, o direito de ascender às diversas tarefas públicas, a sociedade deve estruturar-se, contudo, de maneira tal que as esposas e as mães não sejam de fato constrangidas a trabalhar fora de casa e que a família possa dignamente viver e prosperar, mesmo quando elas se dedicam totalmente ao lar próprio.

Deve além disso superar-se a mentalidade segundo a qual a honra da mulher deriva mais do trabalho externo do que da atividade familiar. Mas isto exige que se estime e se ame verdadeiramente a mulher com todo o respeito pela sua dignidade pessoal, e que a sociedade crie e desenvolva as devidas condições para o trabalho doméstico.

A Igreja, com o devido respeito pela vocação diversa do homem e da mulher, deve promover, na medida do possível, também na sua vida, a igualdade deles quanto a direitos e dignidades, e isto para o bem de todos: da família, da Igreja e da sociedade.

É evidente, porém, que isto não significa para a mulher a renúncia à sua feminilidade nem a imitação do caráter masculino, mas a plenitude da verdadeira humanidade feminil, tal como se deve exprimir no seu agir, quer na família quer fora dela, sem contudo esquecer, neste campo, a variedade dos costumes e das culturas.

24.  Infelizmente a mensagem cristã acerca da dignidade da mulher vem sendo impugnada por aquela persistente mentalidade que considera o ser humano não como pessoa, mas como coisa, como objeto de compra-venda, ao serviço de um interesse egoístico e exclusivo do prazer: e a primeira vítima de tal mentalidade é a mulher.

Esta mentalidade produz frutos bastante amargos, como o desprezo do homem e da mulher, a escravidão, a opressão dos fracos, a pornografia, a prostituição – sobretudo quando é organizada – e todas aquelas várias discriminações que se encontram no âmbito da educação, da profissão, da retribuição do trabalho, etc.

Além disso, ainda hoje, em grande parte da nossa sociedade, permanecem muitas formas de discriminação aviltante que ferem e ofendem gravemente algumas categorias particulares de mulheres, como, por exemplo, as esposas que não têm filhos, as viúvas, as separadas, as divorciadas, as mães-solteiras.

Estas e outras discriminações foram veementemente deploradas pelos Padres Sinodais. Solicito, pois, que se desenvolva uma ação pastoral específica mais vigorosa e incisiva, a fim de que sejam vencidas em definitivo, para se poder chegar à estima plena da imagem de Deus que esplandece em todos os seres humanos, sem nenhuma exclusão.”

Papa João Paulo II, A missão da família cristã no mundo hoje (Familiaris Consortio)

Pobres mulheres

face therese “Ah! Pobres mulheres! Como são menosprezadas! E, ainda assim, muito mais mulheres que homens amam a Deus. Durante a paixão de Cristo, elas demonstraram mais coragem que os apóstolos, pois enfrentaram os insultos dos soldados e ousaram secar a adorável face de Jesus. Por essa razão, Ele permite que as mulheres sejam tratadas com desdém na terra, uma vez que foi também isso o que escolheu para Si mesmo. No céu, Ele mostrará que seus pensamentos não são os pensamentos dos homens (Is 55, 8-9), pois lá os últimos serão os primeiros.” (Santa Terezinha do Menino Jesus, História de uma Alma)